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março 23, 2004
O medo
Os atentados de Madrid deixaram-me cicatrizes na memória: as imagens de morte e horror ardem-me nos olhos, o sanguinário desrespeito pela vida humana atordoa-me, a proximidade assustadora preocupa-me e a tenebrosa hipótese de esta escalada de barbaridade nos atingir perturba-me ainda mais...
Também fui dos que acreditaram na necessidade de secar as fontes do terrorismo fundamentalista no Afeganistão, como tantos outros engoli a falácia das armas de destruição massiva de Saddam, mas agora que a iníqua luva negra do ódio destrói indiscriminadamente e ceifa inocentes às centenas, sinto que é legítimo pôr em causa os motivos, os meios e os objectivos dos que se julgam Senhores do Mundo.
Aos poucos a pesada cortina de evidências revelou-se um diáfano véu de falsidades, e a História provavelmente rotulará os heróis de ontem com a indelével marca da infâmia.
Aznar foi o primeiro a cair, vergado ao peso de uma derrota antes inimaginável, um cadáver político a quem os espanhóis não perdoaram as tentativas de capitalizar os atentados para evitar a hecatombe eleitoral. Tony Blair tem-se mantido, a custo, à tona do movediço lodaçal em que se atolou, mas se a Al-Qaeda decidir cobrar o seu tributo de sangue em solo britânico, o seu fim estará também traçado. George W. Bush será lembrado pelas gerações futuras como o patético e trágico Cowboy que chegou a Presidente sem se saber se de facto ganhou eleições, fez política externa baseada na força das armas, ganhou fáceis batalhas contra fracos opositores e lançou o planeta numa destrutiva espiral de violência e vingança. Quanto a Durão Barroso, os efémeros momentos de glória que partilhou com os Grandes Líderes poderão fazer dele o homem que abriu a porta para que o terrorismo entrasse em Portugal...
Não se trata aqui de fazer a apologia do terrorismo, não subscrevo as teses anti-imperialistas, nem advogo a inocência dos tiranos torcionários que foram alvo das campanhas libertadoras do Tio Sam. Há que ser claro: o terrorismo é um alvo a abater, todos devem tentar contribuir para tornar o Mundo mais seguro, mas o que foi desastradamente feito está à vista, com resultados devastadores – começou-se uma guerra com motivos falseados, impôs-se democracias quando a própria conjugação destas duas palavras é inconcebível, conseguiu-se unir a maioria dos muçulmanos contra um inimigo comum – o Ocidente. Nunca a expressão "os fins justificam os meios" que Nicolau Maquiavel imortalizou foi tão avassaladoramente contrariada.
Enquanto as diplomacias se dispersam por gabinetes e cimeiras, cada novo dia é o último para mais alguns inocentes, que caem vítimas de cobardes criminosos, fanáticos que matam e morrem em nome de Alá e segundo o Corão, quando nem o venerado livro que citam nem o Deus que adoram são fontes de ódio e intolerância, mas tributos de amor e paz, como o nosso Deus e a nossa Bíblia.
Agora o terror está mais próximo, os cenários de atentados no Rock in Rio/Lisboa e nos palcos do Euro 2004 ganham notória consistência, e não querendo ser alarmista, estará a Madeira livre da ameaça? É reconfortante pensar que sim, mas quem tenha um pouco de imaginação não consegue evitar começar a conviver com o MEDO dos atentados, aleatórios e indiscriminados, dos quais podemos ser vítimas apenas por estarmos lá...
Publicado por Raul Ribeiro às 10:43 PM | Comentários (0)